26.09.16 - Notícia: Pesquisa com bichos passa por reavaliação

26/09/2016 

Folha de S.Paulo - Jornalistas: Gabriel Alves e Phillippe Watanabe

Uma das críticas mais comuns (e injustas) ao uso de modelos animais para entender a fisiologia humana e testar tratamentos contra doenças é a de que sempre haverá diferenças consideráveis entre os organismos. Agora imagine se o tal organismo fosse não um roedor, mas um peixe.

Por incrível que pareça, há grandes vantagens – especialmente logísticas e financeiras– em adotar como modelo animal nossos distantes primos aquáticos. Em comparação ao camundongo, roedor de 25 gramas que tem gestação de 21 dias que leva mais 30 até a vida adulta, o peixinho Danio rerio dá um aula de como se reproduzir de maneira eficiente. São 200 ovos diários, contra cerca de dez a cada gestação dos camundongos. A discrepância faz com que o custo de cada indivíduo seja de R$ 0,80 – dez vezes menos do que um camundongo.

A maior vantagem dos peixinhos, relata Mônica Lopes¬Ferreira, do Instituto Butantan, é o desenvolvimento externo. Os ovos viram larva em 72h e todo o processo é literalmente transparente, o que facilita a observação de estruturas internas dos bichos.

Entre os experimentos mais populares com o D. rerio estão os de embriologia e de toxicidade de substâncias. Não há necessidade de injeções, por exemplo – basta a substância a ser testada ser diluída na água que o prejuízo no desenvolvimento pode ser observado e calculado. O peixe também é útil, por exemplo, no estudo de algumas distrofias musculares, doenças que causam perda de função progressiva dos músculos e que podem matar antes dos 30 anos de vida. Mônica conta que entre o Homo sapiens e o D. rerio há 70% de semelhança entre os genes. Nesse quesito, o camundongo (Mus musculus) ainda é imbatível, com mais de 99% dos genes compartilhados com nossa espécie.

ÉTICA

Mas o peixe ganha na disputa bioética. Se um cientista pode optar entre o D. rerio e o camundongo em um estudo que requer muitos animais, é mais fácil obter aprovação quando os escolhidos forem os peixes.

"Esses projetos são mais aceitos porque existe essa prole tão grande. E também porque é possível evitar procedimentos invasivos", afirma Mônica. Para Monica Andersen, coordenadora do Concea (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal), o esforço de reduzir e otimizar o uso de animais acontece, mas "substitui-¬los por simulações de computador ou por cultura de células raramente é possível na pesquisa". "Dá para estudar privação de sono em drosófilas [moscas ¬da -fruta], comportamento e efeitos de drogas –ao borrifar cafeína nelas, por exemplo. Muito melhor do que usar 200 ratos."

INDÚSTRIA

Outra iniciativa na direção dos famosos "três erres" (reduzir, refinar e substituir, ou replace, em inglês) foi a criação de uma pele artificial para teste de cosméticos. O testes em animais geralmente têm duas funções. A primeira é a segurança. Se um produto não é seguro para um animal, há uma boa chance de também não fazer bem para seres humanos. A segunda está relacionada à eficácia da substância que um dia entrará em contato com humanos. Se funciona em animais de experimentação (camundongos, coelhos, ratos e outras espécies), maior é a chance de funcionar em pessoas. A pele artificial pode cumprir bem o papel de testar um cosmético, já que um dos principais objetivos ali e testar se há reação alérgica e o poder de penetração do produto na pele artificial.

Como o cosmético geralmente não chega até a corrente sanguínea, há uma limitação do que pode dar errado, biologicamente falando –os efeitos, desejados ou não, tendem a ser locais. "Ainda não existe solução para o que chamamos de toxicidade sistêmica. Se você toma algo, um medicamento, o que acontece quando ele entra no seu organismo? E em cada tecido que você tem?", diz Vanessa Rocha, cientista da Natura. Mesmo em indústrias de cosméticos, a questão financeira pode atrapalhar o fim de testes. A Natura, anualmente, investe em pesquisa e inovação 3% do faturamento, cerca R$ 200 milhões, diz Michel Blanco, gerente de relações com a mídia. O valor é significativo para empresas grandes e mais ainda para as menores. "Por isso, proibir por lei testes com animais poderia resultar em problemas para muitos empresários."