26.05.17 - Notícia: Médicos brasileiros usam pele de peixe para tratar queimaduras

26/05/2017

O Globo - Jornalista: Indefinido

Pesquisadores brasileiros estão experimentando um novo tratamento para queimaduras graves usando a pele de tilápia, um procedimento pouco ortodoxo que, segundo eles, é capaz de aliviar a dor das vítimas e reduzir custos médicos.

Já há muito tempo utiliza-se pele de porco congelada e até tecido humano para manter queimaduras úmidas e permitir a transferência de colágeno, uma proteína que promove a cicatrização. No entanto, os hospitais públicos do Brasil carecem de suprimentos de pele humana e de porco, além de sofrerem com a escassez de alternativas artificiais — que são facilmente disponíveis em países como os EUA. Em vez disso,o recurso mais comum é a bandagem de gaze, que precisa de mudanças regulares — e muitas vezes dolorosas.

Entretanto, cientistas da Universidade Federal do Ceará (UFC) descobriram que a pele de tilápia tem umidade, colágeno e resistência a doenças em níveis comparáveis à pele humana, e, por isso, pode auxiliar na cicatrização.

A tilápia é um peixe abundante nos rios e criadouros brasileiros, que estão se expandindo rapidamente à medida que cresce a demanda para os peixes de água doce com sabor moderado.

Na China, pesquisadores testaram a pele de tilápia em roedores para estudar suas propriedades curativas, mas cientistas no Brasil alegam que seus testes são os primeiros em humanos.

— O uso da pele de tilápia em queimaduras é sem precedentes — ressalta Odorico de Morais, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC). — A pele do peixe é geralmente jogada fora, por isso estamos usando este produto para convertê-lo em um benefício social.

O tratamento com tilápia tem potencial de acelerar a cicatrização por vários dias e reduzir a necessidade de analgésicos, acrescenta o pesquisador cearense. A terapia consiste em cobrir a parte queimada da pele do paciente com a pele de peixe, e cobrir isso com uma bandagem, sem a necessidade de qualquer creme. Após cerca de 10 dias, os médicos removem a bandagem. A pele de tilápia, que a essa altura já secou e afrouxou da queimadura, pode ser descascada com a mão.

As principais vantagens são que a pele de peixe tem altos níveis de colágeno tipo 1, permanece úmida por mais tempo do que a gaze e não precisa ser alterada com frequência.

PROCESSO DE LIMPEZA

Técnicos de laboratório da UFC trataram a pele do peixe com vários agentes esterilizantes e a enviaram a São Paulo, para passar por uma irradiação que mata qualquer vírus antes de a pele ser embalada e refrigerada. Uma vez limpa e tratada, essa pele pode durar até dois anos, dizem os pesquisadores. E o tratamento remove qualquer cheiro de peixe.

Em ensaios clínicos, a terapia alternativa foi utilizada em 56 pacientes para tratar queimaduras de segundo e terceiro graus. Uma dessas pessoas foi o mecânico Antonio Janio, que queimou seu braço quando um cilindro de gás de solda vazou, conta que o tratamento da pele da tilapia foi mais eficaz do que bandagens que precisam ser trocadas a cada dois dias.
— Eu achei excelente. Tira completamente a dor, você não precisa tomar remédio. No meu caso, pelo menos, eu não precisei, graças a Deus — comenta Janio.

TRATAMENTO MAIS BARATO

O pesquisador Odorico de Morais destaca que o tratamento de pele de tilápia custa 75% mais barato do que o creme de sulfadiazina que é normalmente usado em pacientes queimados no Brasil. Os pesquisadores esperam que o tratamento se torne comercialmente viável e que isso incentive empresas a processarem a pele de tilápia para uso médico.