17.11.17 - Notícia: Composto ajuda pacientes com início de alzheimer

17/11/2017

Folha de S.Paulo - Jornalista: Leonardo Blecher

Um estudo clínico realizado na Europa mostrou que o composto nutricional Souvenaid pode trazer benefícios a pacientes com doença de Alzheimer em fase prodrômica -estágio inicial, em que a enfermidade ainda não provocou demência.

Desenvolvida em institutos da Finlândia, da Alemanha, da Holanda e da Suécia, a pesquisa avaliou os impactos do uso do produto na evolução da doença durante 24 meses. Doses diárias foram oferecidas a 153 pacientes, e 158 fizeram parte do grupo de controle, que recebeu um placebo.

O Souvenaid não se mostrou eficaz para o principal critério avaliado, o desempenho em uma bateria de testes neuropsicológicos que medem funções como atenção, planejamento e capacidade de mudança de estratégia.

No entanto, foram observadas diferenças nos resultados dos dois grupos em testes cognitivos que examinaram a capacidade de execução de atividades diárias, como tarefas domésticas. Os pacientes que tomaram o composto tiveram performance 45% melhor nesta avaliação.

Outro benefício foi constatado em exames de ressonância magnética. Pacientes do grupo que recebeu o composto tiveram atrofia 26% menor no hipocampo, parte do cérebro associada à memória. Acredita-se que o encolhimento desta região seja um dos primeiros sintomas da doença, e que esteja ligado à perda de memória de curto prazo e à desorientação.

Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores afirmam que ainda não é possível receitar o Souvenaid como tratamento para a doença.

"O único conselho que pode ser dado é que se adote um estilo de vida saudável e, se houver suspeita de comprometimento cognitivo, que se considere seriamente a busca de um diagnóstico médico apropriado", disse à Folha o coordenador da pesquisa, Tobias Hartmann, enfatizando que a intervenção nutricional não é a cura para a doença.

Contudo, pela escassez de tratamentos para a fase prodrômica do alzheimer, o resultado da pesquisa foi bem recebido por neurologistas.

"Em um momento de penúria de novas medicações e de falta de novidades em relação a tratamentos, é uma boa notícia", avalia o neurologista Paulo Caramelli, professor da Universidade Federal de Minas Gerais. "A última medicação aprovada para a doença de Alzheimer já tem quase 15 anos", completa, referindo-se à Memantina, lançada no Brasil em 2003.

Caramelli valoriza a busca por alternativas nutricionais. "Na classe médica há um ceticismo para tratamentos não farmacológicos, mas há estudos que são válidos", afirma. "Temos que começar a olhar de modo multidisciplinar."

Para Marcio Balthazar, da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), ainda faltam evidências da efetividade do Souvenaid. O neurologista, entretanto, recomenda o composto aos seus pacientes, pela falta de outras opções.

"É bem caro, não é maravilhoso e os estudos ainda precisam ser replicados por centros diferentes", diz Balthazar. "Mas eu receito, pois tem pouco efeito adverso e traz algum benefício."

O COMPOSTO

O Souvenaid é uma bebida composta de ácidos graxos EPA e DHA (ômega 3), colina, fosfolipídios, uridina monofosfato, vitaminas E, C, B12, B6, selênio e ácido fólico. Estudos já mostraram que pacientes com alzheimer têm baixos níveis desses nutrientes.

Nos testes realizados até agora, não foram identificados efeitos adversos mais graves. A única contraindicação é para pacientes com alergia a frutos do mar, pois a fórmula contém óleo de peixe.

Entretanto, um fator que pode afastar os consumidores é o preço do produto. No site oficial, um pacote com quatro unidades de 125 ml custa R$ 71,10. Como o tratamento envolve o consumo de uma unidade por dia, o custo mensal é de R$ 533,25.

Em 2014, a Danone, fabricante do composto nutricional, pediu à Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) uma análise sobre o produto, com o objetivo de que ele fosse oferecido na rede pública.

À época, o Souvenaid havia sido testado para alzheimer leve e moderado, e foram constatados alguns benefícios. No entanto, o relatório da Conitec não recomendou a incorporação do composto ao SUS, sob a alegação de que faltavam evidências de que ele fosse capaz de retardar a progressão da doença.

O novo estudo, financiado pela União Europeia e publicado recentemente na revista "The Lancet Neurology", é o mais amplo já realizado sobre o Souvenaid.

NUTRIÇÃO

Segundo os pesquisadores, o estudo ajuda ainda a esclarecer a importância do diagnóstico do alzheimer em sua fase inicial, quando poucos sintomas podem ser observados. "Os resultados são um indicador de que algumas patologias podem ser tratadas na fase prodrômica. É notório que tenhamos observado isso com uma intervenção nutricional bem moderada", disse Tobias Hartmann.

Para a neurologista Sonia Brucki, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), a perspectiva nutricional é promissora. "A gente sabe que melhorando a dieta como um todo, há benefícios do ponto de vista cardiovascular, do colesterol, e tudo isso reflete no funcionamento cerebral", afirma.

Os resultados serão usados agora para aperfeiçoar as próximas pesquisas com abordagens nutricionais, "que continuam sendo desesperadoramente necessárias para o que parece ser um longo caminho em busca de uma cura para a doença de Alzheimer", diz o coordenador do estudo.