12.06.20 - Notícia: Projeto Flora do Brasil 2020 lança vídeo sobre espécies vegetais do país

Publicado em: 04/06/2020 - Atualizado em: 12/06/2020

Boletim FAPERJ

Paula Guatimosim

Paisagem da região do Jalapão, no estado do Tocantins, característica do bioma Cerrado, que concentra 13.566  espécies

Com uma das maiores biodiversidades do mundo, o Brasil sempre foi alvo de interesses científicos e comerciais. Sua flora é composta por exatos 46.095 espécies catalogadas. Desse total, 32.686 são angiospermas (plantas que dão flores e possuem sementes protegidas pelo fruto), 4.758 são algas (que não são exclusividade da água doce ou salgada, mas também vivem em ambientes terrestres úmidos), 5.720 tipos de fungos (como os cogumelos), 1.358 samambaias e licófitas, 1.548 briófitas (plantas que crescem em solos úmidos, como os musgos) e 25 gimnospermas (plantas típicas do clima frio ou temperado, que não possuem fruto que envolve a semente, como os pinheiros, mas que, curiosamente, no Brasil, têm sua maior representatividade na Amazônia). Mas esses números referem-se ao computado até o dia 19 de maio passado, pois os dados são permanentemente atualizados e hoje possivelmente já mudaram.

Todas essas informações, fruto de um trabalho de pesquisa de mais de 12 anos e em constante atualização, estão sendo divulgadas agora no vídeo Flora do Brasil 2020 (https://www.youtube.com/watch?v=TILuUwLx7wY&t=308s ). A coordenadora do projeto é a pesquisadora Rafaela Forzza, que recebe apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas por meio do programa Cientista do Nosso Estado. Com pouco mais de oito minutos de duração, o vídeo tem direção, animação, montagem e narração de Marcelo T. Kubo, que também divide o roteiro e a pesquisa com Fabiana R. Filardi, Paula Leitman e Rafaela Forzza. Nos créditos finais, além do agradecimento, está a lista com o nome de centenas de pesquisadores que contribuíram, em sua maioria voluntariamente, com o projeto.

O projeto Flora do Brasil 2020 também disponibiliza informações sobre como estão distribuídas as espécies catalogadas pelos biomas brasileiros e qual o grau de conservação de cada uma delas. De um total de mais de 46 mil espécies, 14.776 estão na Floresta Amazônica, 5.865 na Caatinga, 13.566 no domínio do Cerrado, 1.588 no bioma Pantanal, 2.096 no Pampa e 20.174 na Mata Atlântica. Ou seja, é o bioma Mata Atlântica que abriga o maior número de espécies, mesmo conservando apenas 12,4% de sua cobertura de floresta original, e que abrange 3.429 municípios de 17 estados, onde vivem 72% dos brasileiros e são gerados 70% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Isso sem considerar outros milhares de espécies a serem descobertas, especialmente no bioma Amazônico e no Cerrado.

Para chegar a esse resultado, pesquisadores do Brasil e do exterior trabalham desde 2008 cumprindo metas estabelecidas pelos acordos internacionais da Convenção da Diversidade Biológica. Tudo começou no final da década de 1990, na Rio 92, quando nações de todo o mundo passaram a se preocupar com a perda de biodiversidade e a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB). Principal fórum mundial para questões relacionadas ao tema, a CDB foi aprovada durante a conferência dos países signatários da Convenção, em abril de 2002, em Haia, na Holanda. Naquele ano, com o objetivo de reduzir o ritmo de extinção de plantas em todo o mundo, foi estabelecida a Estratégia Global para a Conservação de Plantas (GSPC, em inglês), que é composta por cinco objetivos e 16 metas que deveriam ser cumpridas até 2020, baseada no princípio de que “sem plantas não há vida”.

Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a capixaba Rafaela cursou mestrado e doutorado em Botânica na Universidade de São Paulo (USP) e, em 2002, foi aprovada em concurso para o Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ). A pesquisadora conta que para cumprir a Meta 1 da GSPC, de “Elaborar e dar acesso irrestrito a floras online de todas as espécies conhecidas”, em 2008 o Jardim Botânico do Rio foi convidado pelo Ministério do Meio Ambiente para coordenar o inventário de plantas, algas e fungos do Brasil e produzir a Lista de Espécies da Flora Brasileira para 2010 e a Flora do Brasil para 2020. Rafaela diz que foi necessária uma força-tarefa para cumprir a primeira etapa em apenas dois anos: mais de 400 taxonomistas brasileiros e estrangeiros se dedicaram à revisão de toda a flora brasileira descrita, identificada e classificada. Com o lançamento da plataforma com a lista de espécies da flora do Brasil (floradobrasil.jbrj.gov.br) e do Catálogo de Plantas e Fungos do Brasil, organizado por Rafaela, com 41 mil espécies, em 2010, foi atingida a primeira meta da GSPC.

“Precisávamos de um vídeo para contar a história completa desse projeto, que é de longa duração”, explica a bióloga, que pensa em uma versão mais curta, de pouco mais de um minuto, para atrair o público mais jovem da web. O vídeo explica ainda que como várias plantas brasileiras foram descritas por pesquisadores estrangeiros, devido à grande quantidade de material depositado em herbários fora do Brasil, a partir de 2010 o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), também designou o JBRJ para coordenar o Projeto Reflora (Resgate Histórico e Herbário Virtual para o Conhecimento e Conservação da Flora Brasileira), que recebeu recursos da FAPERJ. Rafaela também esteve à frente deste projeto, que reúne imagens em alta resolução do material depositado em dois dos maiores herbários do mundo, o Museu de História Natural de Paris (França) e o Jardim Botânico de Kew, na Inglaterra, e do Jardim Botânico do Rio. Reunindo mais de 400 mil imagens, o Herbário Virtual Reflora, com livre acesso, foi lançado em 2013 e hoje conta com mais de 15 herbários estrangeiros e 72 nacionais, somando 3,7 milhões de imagens em alta resolução.

Para elaborar a Flora do Brasil 2020, um novo sistema foi criado, integrando a Lista de Espécies da Flora do Brasil e o Herbário Virtual Reflora. Desde 2010, nada menos que 900 taxonomistas de 200 instituições em 23 países vêm trabalhando em rede para incluir no sistema informações sobre a flora brasileira. Todo o conteúdo é disponibilizado gratuitamente em imagens de alta resolução e mais de 3 mil pessoas acessam a plataforma todos os dias. O sistema também está integrado ao Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora), que fornece informações sobre as espécies ameaçadas.

A botânica, que também conta com bolsa de pós-doutorado e de apoio técnico da FAPERJ para as alunas Fabiana Filardi e Paula Leitman, coautoras do vídeo, espera que a apresentação dos fatos ao longo da linha do tempo também revele o pano de fundo da pesquisa de longa duração. “A maioria dos órgãos de fomento à pesquisa no Brasil tem dificuldade para entender a pesquisa de longo prazo, e estabelecem o máximo de cinco anos para seus apoios, um intervalo de tempo muito curto para o desenvolvimento desse tipo de pesquisa”, argumenta. Segundo ela, não fosse o apoio atual da FAPERJ e do próprio JBRJ, o projeto estaria enfrentando dificuldades maiores por falta de recursos.

Diante do problema de saúde pública causado pela pandemia do novo coronavírus, Rafaela, que é Coordenadora da área de Ciências Biológicas da FAPERJ, revela preocupação com a “necessária” atenção dada atualmente às pesquisas na área médica, em detrimento das demais ciências como um todo. “Claro que precisamos respostas rápidas para a Covid-19, mas é preciso considerar que a pandemia tem relação direta com a destruição da biodiversidade no mundo”, considera a pesquisadora. “Como é possível que ainda hoje haja consumo de animais silvestres no mundo?”, questiona a bióloga, sobre uma das teorias do início da transmissão do novo coronavírus.  Certa de que a ciência terá papel fundamental para o fim da pandemia, Rafaela torce para que a sociedade compreenda, de uma vez por todas, os danos causados pelo desmatamento, pelas queimadas, e pela ocupação desordenada de terras.